Como tornar o bairros mais caminháveis

A experiência de caminhar por um bairro pode ser muito mais agradável se o espaço público apresentar algumas características. Algumas têm relação com os principais pontos de interesse, outras com as dimensões das calçadas e ruas, ou ainda, com os serviços e comércios disponíveis.

Com o objetivo de identificá-las e, assim, promover sua aplicação em diferentes cidades (sem esquecer do contexto específico de cada caso), a arquiteta e planejadora Liz Treutel, identificou cinco fatores presentes nos bairros caminháveis. Veja-os a seguir.

1. Densidade

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A relação entre quantidade de pessoas e os lugares de interesse podem ser um reflexo do quão caminhável é um bairro. Isso é explicado em parte porque haverá circulação de pessoas em direção a estes lugares, que podem ser comércios, escolas, parques, serviços etc.

Neste sentido, Liz considera que um bairro é mais agradável quando há mais pessoas por quilômetro quadrado. No entanto, também explica que isso não significa necessariamente que um bairro só será atrativo se alcançar níveis de densidade altíssimos.

2. Uso do solo misto

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Se em um bairro há casas, escolas e comércios, isso estabelece uma maior variedade de destinos aos quais se pode chegar caminhando. Para a arquiteta, “as melhores misturas de uso do solo não têm apenas uma grande quantidade de opções, mas opções alternadas.”

Liz usa como exemplo uma situação muito comum. Quando você vai a pé a uma reunião e quer tomar um café no caminho, isso é possível em um bairro cujo uso do solo é alternado entre habitações, comércio e serviços.

3. Tecido urbano quadriculado

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As ruas que formam ângulos retos são mais fácies de percorres por dois motivos. Primeiro, oferecem rotas mais diretas e, segundo, mais opções de caminhos. Por sua vez, estes caminhos podem ser alternados sem, com isso, aumentar a distância até seu destino.

4. Edifícios orientados para as pessoas

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A localização de um edifício pode favorecer ou afetar a caminhabilidade de um bairro, segundo a arquiteta. Em cidades mais caminháveis, os edifícios se caracterizam por estarem próximos à calçada e apresentarem várias aberturas que conectam visualmente o interior ao exterior.

5. Quadras pequenas e ruas estreitas

A largura das ruas é um fator muito vinculado ao tamanho e distribuição dos edifícios. Assim, um aspecto que contribui para que um bairro seja mais caminhável é a combinação de ruas estreitas e quadras pequenas, que oferece uma escala mais adequada ao pedestre.

Por sua vez, ruas largas estimulam o trânsito em alta velocidade, aumentando o risco à segurança nos pontos de cruzamento.

Via Archdaily

Aquarius, um filme para arquitetos

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Ana Paula – Eles estão oferecendo quase 2 milhões de reais. por esse apartamento.

Clara – O que você quer dizer por “esse, uma pausa, apartamento”?

Ana Paula – Ah mãe, eu quis dizer que, essa grana… por esse apartamento. Só isso.

Clara – Esse apartamento, é o apartamento onde vocês cresceram. Esse apartamento é na praia de Boa Viagem.

Através dessa fala, Clara estabelece pro espectador a importância do seu apartamento, que ela discute com seus filhos sobre a possibilidade de venda dele para a construtora. Na sala onde se passa a cena, foram criados seus filhos, e estão seus netos sendo cuidados por quem um dia teve sua frauda trocada por Clara.

O mais interessante do filme é se passar na cidade do Recife (minha terra natal por sinal), local que foi palco de um movimento recente de ocupação denominado “Ocupe Estelita”, uma resistência dos recifenses pela preservação dos espaços públicos da capital pernambucana que vem sendo ameaçada pela especulação imobiliária e as “urbanizações” promovidas pelas construtoras. Coincidência? Não.

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Outro fato interessante é o prédio usado para as gravações, chamado na verdade de Oceania, é localizado na Praia de Boa Viagem como diz a protagonista, vizinho de um antigo edifício da década de 30, que foi demolido em 2013. Coincidência? Não. Na verdade, a ideia original era gravar o filme neste edifício chamado Caiçara.

Kleber Mendonça Filho foi feliz na escolha da temática do filme, ele traz diversos ensinamentos aos arquitetos e construtoras brasileiras, principalmente as da cidade do Recife, recentemente ameaçada pelo projeto Novo Recife.

Para os arquitetos, fica evidente a importância da nossa profissão, ouso dizer que é a mais humana das artes. Como o arquiteto deve compreender as necessidades e desejos do cliente, pois aquele trabalho moldará a vida de quem contrata aquele serviço. O apartamento de Clara pode não ter sido projetado por um arquiteto, mas independente disso, deve ser levado a sério como seu projeto pode afetar alguém, pois seus filhos, netos e talvez bisnetos serão criado ai.

Outra lição são para as construtoras e certos urbanistas contemporâneos. Cito Edward Glaeser, economista com a marcante frase: “Preservar casinhas é insustentável”. Glaeser defende um modelo de cidade assim como Hong Kong, que “cresce para cima, não para os lados”.

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Pensamentos como o Edward Glaeser foram os mesmos que levaram ao crescimento desenfreado das grandes megalópoles (São Paulo, Nova Iorque, Hong Kong) com um adensamento demográfico absurdo. Quem lê o sertanista sabe como sou otimista pelo rumo que alguns urbanistas e pensadores tem tomado em direção a humanização das cidades, se seguirmos pelo caminho de Glaeser ou das construtoras do Recife e outras tantas capitais, estaremos em direção a um urbanismo retrógrado, de densidades absurdas, problemas seríssimos de mobilidade, de saúde, história, preservação e ambiental.

Se Clara resiste, o Aquarius resiste, se o Aquarius resiste, a cidade resiste.

 

[Discussão] Arte x Arquitetura: Qual deve ser a relação?

Sempre tive vontade de abrir espaço para esse assunto que sempre me causa certo desconforto em várias situações. Como estudante de arquitetura e urbanismo muitas pessoas me questionam com relação a detalhes estéticos e artísticos em algumas obras e eu espero elucidar meu ponto de vista sobre estes aspectos com este texto.

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© Brian Goodman via Shutterstock

Quando entrei no curso de arquitetura e urbanismo no começo de 2013, tinha uma leve  noção do que essa profissão significava. Meu pai é arquiteto desde meados dos anos 80, eu cresci vendo ele trabalhar, sempre com papel e mais tarde na frente do computador, incessantemente. Linha daqui, linha pra lá, parede, texto, especificações, cotas, maquetes, várias reuniões com clientes insatisfeitos com algum detalhe ou outro, várias alterações e noites em claro. Pois bem, quem tem contato com um profissional da área da criatividade sabe bem o que eu estou falando e vivendo. Nós, profissionais destas áreas, recebemos uma base histórica e artística rica, justamente para conhecimento e aplicação profissional. Aí você pode me questionar “Ah, mas então a pergunta já está respondida!” e eu digo que… Não! Então gostaria de perguntar se você conhece alguém que mora em uma pintura ou escultura. Se eu estiver certo, acho que isso seria impossível. Chamo esse fator de belas artes, ou seja, artes para contemplação e embelezamento mas não necessariamente com uso. Mas isso não é necessariamente inútil, não estou querendo dizer isso, já dizia Oscar Niemeyer, se é belo tem função. Arquitetura, ao meu ver não deve ser tratada como uma bela arte, pois não serve apenas para contemplação, apesar de poder ser contemplada também, mas deve ser tratada como um desenvolvimento técnico estético-funcional humanístico que gera uma forma adequada os usos do local de estudo para implantação. Mas o que eu quis dizer com esse aglomerado de palavras? Arquitetura não trata apenas de criar uma forma para uma edificação, e sim pensar na concepção, na iluminação, nas condições de salubridade, na técnica construtiva, nos detalhes estéticos e principalmente nas consequências da  dinâmica de uso e seu impacto na vida de todos os usuários dessa concepção. Aí também encontro um divisor de água entre arquitetura e engenharia, onde ao meu ver o fator função é o primordial. Gosto de pensar meus projetos como formas de vida. Eles nascem, crescem, evoluem, aumentam, encolhem, ficam velhos, se machucam, precisam de manutenção, enfim, eu vejo a coisa desta maneira e busco subsidiar com a maior eficiência possível para aumentar o desempenho das minhas criações.

Conclusão: Em vista disso tudo que apontei acima, categorizaria então a relação da arte com a arquitetura como uma roupa. A arquitetura veste a roupa plástica que a arte embasa. Arte nos dá repertório para criação, mas ela por si só não faz nada “arquitetural”. Não devemos pensar apenas na função estética, ela é parte do processo. Nós representamos a intersecção entre o estético e o uso, a arte e o técnico, a sensibilidade e a razão além do estudo social e, por isso não devemos pender para nenhum lado. Vejamos os exemplos catastróficos de ambos os lados, como os modernistas  que penderam para uma “estética funcional”, a parte mais técnica da coisa. Temos cidades muito infelizes nesse movimento, como a nossa capital Brasília, que se preocupa tanto em ser funcional que esquece de respeitar o usuário e a escala humana, esse embasamento é criticado inclisive por outros arquietos como Jan Gehl.

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Observe a escala da cidade de Brasília sobre a ótica de um pedestre. Condições climáticas e relações de distância e medidas tornam o uso irreal para tais. 

Temos também outros exemplos de arte “técnica” nos quais os espaços projetados são muito mais bonitos do que funcionais, muitas vezes esquentam demais, não respeitam relações de medidas, não se adequam ao mínimo que a parte técnica necessita, resumindo: saem bonito na foto mas só servem para isso.

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Veja este belo prédio contemporâneo, seria uma pena se o vidro gerasse um efeito estufa tão potente no interior que tornasse a fachada um tabuleiro de ar condicionado. 

Espero que a discussão seja proveitosa e gere crescimento para todos.

Halle, cidade alemã renovada pelo grafite

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Existe um município na Alemanha com um pouco mais de 200 mil habitantes que passa por uma transformação forte, esse número já foi maior devido ao declínio no número de moradores que tem saído da cidade devido a fatores externos como violência, desemprego e etc. No entanto, um projeto idealizado por um grupo de artistas e grafiteiros tem renovado a cidade e transformado sua aparência.

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É o Festival All You Can Paint, onde artistas dão aquele tapa na fachada da arquitetura tradicional alemã e juntamente com a população pintam e dão nova aparência a cidade. O festival acontece desde 2012 e conta com participação de artistas do mundo todo, entre os trabalhos realizados na cidade está o de Marina Zumi, artista argentina que vive em São Paulo, sua obra chamada Honeycomb of life cobriu 800 m² de todo um edifício nas cores do arco-íris no formato de favos de mel, e ainda com 11 abelhas cada uma representando um membro da comissão do evento.

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Honeycomb of life, de Marina Zumi

Dois artistas brasileiros já expuseram seus trabalhos neste festival, são eles Paulo Ito e Alexandre Keto, veja na sequência a obra dos dois na cidade:

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Mural do Paulo Ito

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Mural do Alexandre Keto

Os curadores antes de realizarem o festival, procuraram as cidades na Alemanha com ruas mais vazias, e a cidade era Halle. Segundo eles, 80% das casas da cidade estavam abandonadas na época anterior ao festival, e também muitos problemas como tráfico de drogas, crimes, prostituição e etc.

O mais interessante do festival é que a população participa ativamente do mesmo, um exemplo da participação da população é o mural próximo ao antigo matadouro de ovelhas, lá todos os desenhos das ovelhas foram feitos por quem morava naquele edifício que foi pintado.

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Mural com ovelhas, cada uma desenhada por cada habitante do prédio.

Para os curadores do festival, o número de casas vazias em um determinado bairro da cidade de Halle foi reduzido pela metade desde o início do festival. E o mesmo que era o mais problemático hoje é o que mais atrai as pessoas.

Esse festival tem feito maravilhas a cidade de Halle, tanto no aspecto estético quanto socioeconômico. No entanto, deve sempre ser considerado que tal transformação pode trazer problemas como a gentrificação, nesse caso talvez não seja tão provável que ocorra tal fenômeno pois a população participando ativamente de uma transformação dessa reduz menos as chances do efeito da gentrificação.

Fotografia: Arquitetura de palácios italianos sob o olhar de David Burdeny.

Que a Itália tem belíssimas realizações e artistas ninguém duvida, não é mesmo? Podemos então dar um passeio por estas fotos sensacionais do fotógrafo David Burdeny que esteve por lá.

É interessante observar o diálogo do espaço entre os detalhes arquitetônicos e artísticos. Muitas das obras retratadas demoraram mais de uma década para finalizar apenas o acabamento das pinturas.

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Apartamentos da Princesa Isabel, Palazzo Colonna, Roma, Itália, 2016

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Castelo de Sammezzano, Toscana, Itália, 2016

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Hunting Lodge (Rotunda), Stupingi Palace, Piemonte, Itália

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Quarto Mapa , Villa Farnese, Caprarola de 2016

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Quarto espelho, o Palácio Ducal, Mantua, Itália, 2016

Essas foram algumas das fotos liberadas na galeria do site, que ainda não está completa. Eu particularmente não sou muito fã de ambientes brancos mas vamos combinar que esse gosto palaciano é pura ostentação! Você pode ver mais no site clicando aqui .

3 Cidades que transformaram seus viadutos em parques

Com o sucesso do boulevard olímpico e a total revitalização da área portuária do Rio de Janeiro, entra em discussão novamente a demolição ou não do minhocão, no entanto, antes que venham com todas as conclusões de que derrubar é o melhor caminho para o entorno do Elevado Costa e Silva, que tal vermos alguns exemplos de cidades que mantiveram seus viadutos e souberam utilizar de modo inteligente a estrutura.

1 – The High Line, Nova Iorque, EUA.

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Esse exemplo é sempre usado como comparação por quem defende a preservação e transformação do minhocão em parque, afinal se trata de uma antiga linha ferroviária de 2.6 km de extensão que passa pelo Chelsea e por uma parte considerável da Zona Oeste da ilha de Manhattan. A Prefeitura de Nova Iorque propôs em 1999 demolir a ferrovia elevada, afinal a linha já estava a 19 anos sem uso, atraindo usuários de drogas e diversos outros problemas urbanos gerados pela degradação. No mesmo ano Joshua Davis e Robert Hammond, dois nova-iorquinos sem qualquer experiência em planejamento urbano ou arquitetura, tiveram o interesse de transformar a ferrovia elevada em parque urbano e fundaram a “Friends of the High Line” que com a ajuda da comunidade local conseguiu impedir a demolição da linha e preservando para a transformação em parque.

2 – Promenade Plantée, Paris, França

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O Promenade Plantée é o primeiro parque elevado do mundo, localizado em Paris, ele passa por toda a 12ème, um bairro da capital francesa e tem 4.5 km de extensão e vai até o jardim Reuilly. Em alguns pontos do viaduto seus arcos foram fechados e transformados em lojas como é o caso da parte Viaduc des arts onde tem várias lojas especializadas em artes, artesanato, fabricantes de botões, decoração e etc. Em sua parte de cima fica o jardim onde grande partes das flores foram plantadas mas tantas outras que cresceram são do local mesmo.

3 – Viadukt, Zurique, Suíça.

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Assim como o High Line e o Promenade Plantée, esse parque também era uma antiga linha ferroviária de grande importância para a cidade, no entanto, em certo momento, não ouve mais a necessidade daquela linha e o consórcio responsável construiu outra ao lado, mais alta e eficiente, surgiu então a proposta de demolição da linha, porém um conjunto de moradores viu a oportunidade de transformar o viaduto em algo maior, foi então que surgiu o Viadukt.

Sua parte superior onde passava o trem, foi transformado em uma passarela para pedestres, os seus arcos também foram fechados e transformados em pequenas lojas, no entanto tem uma diferença, comércios tratam de apenas pequenos e microempreendedores onde suas lojas pagam menos impostos como forma de incentivo e trazer os empreendedores para a antiga área industrial que se encontra o viaduto.

O objetivo do projeto, das lojas, da isenção fiscal, são todos de uma plano maior de trazer a população para a área industrial e atender as necessidades e reivindicações dos pequenos empreendedores.

Pra finalizar, há diversos exemplos de vias expressas e viadutos demolidos que revitalizaram por completo certa cidade, assim como há tanto outros diversos exemplos de projetos que reaproveitavam sua estrutura ja existente para prover novos espaços urbanos para as cidades. O importante é que se faça algo e acima de tudo com o consetimento e opinião da população, esse é o fundamento do planejamento urbano.

Iluminação: Show no festival das luzes de Berlim 2016

A beleza de um espaço está diretamente ligada com a forma a qual enxergamos e percebemos o mesmo, certo? Palavras não são necessárias quanto a beleza de Berlim, que está ficando mais bonita esse mês!
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A capital da Alemanha virou palco para vários artistas desde o dia 7 de outubro, quando começou a rolar o Festival das Luzes , um evento grandioso e magnífico que ilumina com luz projetada vários pontos da cidade, como o Portão de Brandemburgo, a torre de rádio, a Universidade de Berlim e a Catedral.
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São mais de 50 pontos com exposições artísticas no espaço construído, transformando a cidade em uma verdadeira galeria a céu aberto! Corre no site que tem a cobertura do evento clicando aqui!

Se a ideia era deixar a cidade mais convidativa (e fazer este humilde escritor continuar morrendo de vontade de visitar essa cidade incrível :P), meus parabéns senhoras e senhores!